A Rede Metodista de Educação, um dos mais antigos sistemas de ensino confessionais do Brasil, atravessa uma crise sem precedentes. Em 2021, o grupo protocolou um pedido de recuperação judicial que abrange 16 instituições educacionais, espalhadas por cinco estados e 12 municípios. A intenção era evitar o que seus gestores chamaram de “colapso inevitável” diante do crescimento acelerado do passivo trabalhista e financeiro.
A decisão judicial que deferiu a tutela de urgência em caráter antecedente reconheceu a situação excepcional: embora as entidades sejam associações civis sem fins lucrativos, sua atividade econômica organizada — oferta de serviços educacionais privados — permite aplicação da Lei de Recuperação Judicial. A jurisprudência utilizada citou casos similares, como o da Universidade Cândido Mendes e o Hospital Evangélico da Bahia.
Dívidas ultrapassam R$ 1,7 bilhão
Segundo dados apresentados nos autos, o passivo da Rede Metodista soma quase R$ 1,7 bilhão. Apenas os débitos trabalhistas superam R$ 528 milhões, representando cerca de 64% do total das obrigações. O restante inclui cobranças bancárias, fornecedores e tributos.
Relatório da administradora judicial revelou que, passados dois anos do deferimento do plano, menos de 17% da dívida foi quitada. No mesmo período, as dívidas contraídas após o início da recuperação já ultrapassam o passivo original, agravando a instabilidade.
Professores, o elo mais vulnerável
A situação dos professores é uma das mais dramáticas. Muitos foram demitidos sem o recebimento de verbas rescisórias, e até hoje aguardam a regularização do FGTS. Os sindicatos relatam que centenas de profissionais ainda não receberam valores acordados no plano judicial. O clima entre docentes e ex-funcionários é de descrença. Em nota conjunta divulgada em março, a CONTEE e diversos Sinpros criticaram o que chamaram de “manobras protelatórias” do grupo, que estaria tentando postergar o inevitável: a falência.
Igreja Metodista tenta blindar seu patrimônio
As escolas estão ligadas às regiões eclesiásticas da Igreja Metodista, o que levou a Justiça a incluir a própria igreja entre os beneficiários da suspensão de execuções. A decisão judicial considerou que, apesar de não insolvente, a Igreja enfrenta sérias dificuldades de liquidez devido a bloqueios judiciais de recursos. O argumento da defesa é que a continuidade das atividades educacionais depende de uma reorganização conjunta entre escolas e igrejas regionais.
Venda de imóveis para quitar dívidas
Parte do plano de recuperação inclui a venda de patrimônio imobiliário. A desmobilização de ativos já resultou no fechamento de unidades inteiras, como o tradicional Instituto Bennett, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, a receita gerada com essas vendas não tem sido suficiente para estancar a crise.
Críticas à condução do processo
Em nota, as entidades sindicais afirmam que a recuperação judicial se tornou uma “moratória disfarçada”. Apontam ainda a falta de transparência, o atraso nas prestações de contas e a ausência de ações concretas para reverter o quadro. Segundo eles, a administração judicial e o juízo do caso estariam sendo lenientes diante de reiterados descumprimentos do plano aprovado.
Advogado alerta para falência iminente
O advogado Jeferson Brandão, que tem acompanhado de perto o caso, foi categórico: “A falência de toda a Instituição Metodista do Brasil é iminente e só não foi decretada ainda, conforme manifestação conjunta dos sindicatos e confederações dos trabalhadores das instituições de ensino, pelo motivo do juiz e administrador judicial não estarem cumprindo com os comandos da Lei 11.101 de 2005, que trata das Recuperações Judiciais e Falências”.
Segundo Brandão, após a publicação de um vídeo sobre o caso, diversos professores e até advogados que atuaram na instituição o procuraram para relatar os bastidores do colapso. “Esses depoimentos, com autorização, serão publicados no momento oportuno”, completou.
Perspectivas e desfecho
Com o prazo de três anos da recuperação se encerrando no final de 2025, cresce a pressão para que a Justiça determine o cumprimento do plano ou declare a falência do grupo. Para os sindicatos, é a única forma de garantir algum ressarcimento aos trabalhadores. Para os gestores, é preciso mais tempo para que a reestruturação se consolide.
O impasse segue. E no meio dele, estão os professores, os alunos e a memória de uma das redes educacionais mais antigas do Brasil, hoje fragilizada por décadas de gestão contestada e por uma crise que não dá sinais de recuo.