‘Em Nome de Quem?’: jornalista lança livro sobre “projeto de poder” da bancada evangélica

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O grupo de parlamentares identificado pela imprensa como “bancada evangélica” forma uma força de atuação que atrai muitos olhares e questionamentos. Em 2018, a jornalista Andrea Dip aprofundou uma reportagem que havia produzido em 2015 e a transformou em livro, expondo os políticos desse grupo a partir de um olhar crítico.

O livro Em Nome de Quem? é uma versão estendida da reportagem Os Pastores do Congresso, publicada em outubro de 2015 pelo portal A Pública, meses antes da conclusão do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Agora, com o texto da reportagem atualizado e transformado em livro, Andrea Dip concedeu uma entrevista ao portal Metrópoles fornecendo pinceladas do que é possível encontrar em sua obra jornalística, e destacando que a proposta não é atacar os evangélicos (meio onde foi criada), mas apresentar a atuação dos políticos eleitos por esse segmento.

Confira a entrevista na íntegra:

Você transformou uma reportagem em livro. O que precisou atualizar?
Basicamente tudo! Quando escrevi a matéria, em 2015, o Cunha ainda era presidente da Câmara. Tive de contar um pouco sobre o desempenho dos evangélicos no impeachment, o papel do próprio Cunha – uma peça central – e depois o que aconteceu com ele. Falei ainda do Temer e de como os parlamentares evangélicos se comportaram durante a deposição de Dilma e nesse governo. Refiz todas as pesquisas, usei algumas coisas do original, coloquei alguns trechos de outras conversas.

Entre o tempo da matéria e a publicação do livro, você sentiu alguma mudança significativa no poder da bancada evangélica?
A bancada evangélica votou quase que totalmente a favor do impeachment e quase em unanimidade para não levar adiante os processos contra o Temer. Eles sempre se colocaram contra as investigações sobre o presidente. Na época do impeachment, o próprio Silas Malafaia gravou vídeos ameaçando deputados que se posicionassem contrários à deposição da petista. Isso foi bem forte, essa cobrança dos parlamentares por parte de lideranças de igrejas. O Temer recebeu vários líderes da religião na posse e se aproximou espertamente deles para manter a bancada ao seu lado.

O Cunha foi um expoente?
Ele trouxe muita coragem para a bancada. Quando era presidente da Câmara, se posicionava muito como o deputado evangélico, participava de cultos no Congresso, desenterrou projetos de lei e pautas reacionárias. Trouxe muita visibilidade para a bancada. Com a prisão dele, teve uma mudança de comportamento: os parlamentares passaram de aguerridos e barulhentos para uma posição mais silenciosa. Não perderam força ou pararam de atuar, mas tornaram-se menos midiáticos. Quando fui para a segunda rodada de entrevistas, pensando no livro, ficou muito difícil falar com eles.

Você dedicou o livro aos seus pais. Como foi fazer essa apuração tendo sido criada num contexto evangélico?
Quando comecei a reportagem para a Pública, a ideia de pauta surgiu numa reunião, nem foi sugestão minha. Ter tido um contato com esse meio tornou tudo mais fácil, porque nada ali era muito estranho para mim. Sei como os rituais funcionam, como cada denominação se articula, como se desenvolve o raciocínio da religião. Isso me ajudou muito. Meus pais, como digo no livro, foram para mim um contraponto a tudo que eu via acontecendo na igreja, pois eles eram evangélicos e se moviam a partir de um amor e de uma compaixão muito reais. Isso me deu uma noção: é possível estar dentro dessas instituições e fazer algo diferente dos poderosos.

Como você acha que a população evangélica se beneficia da leitura do seu livro?
Meu livro fala sobre um projeto de poder dos políticos evangélicos. Embora eleita pela população, a bancada não representa a comunidade evangélica em sua totalidade. Existe autonomia de pensamento dentro da religião, inclusive temos uma frente de resistência que tem se levantado contra as diretrizes dos parlamentares. Os fiéis precisam ler o livro e entender se quem está no poder de fato os representa. Eles não são ilibados, a maioria tem processos correndo no Supremo Tribunal Federal (STF).

Qual a sua expectativa, nesse contexto, para a eleição de 2018?
Eu sinceramente não sei o que esperar dessas eleições. Não consigo prever nada. Acho muito importante conhecer bem os candidatos. No caso dos evangélicos, não se pode aceitar acriticamente as indicações feitas por pastores e superiores. É preciso saber da vida dos candidatos, se são de fato pessoas honestas. Temos que entender a trajetória política de cada um, porque existem muitos interesses em jogo.

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